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Publicado: Segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Que não vendem os meus olhos ou calem a minha boca

Que não vendem os meus olhos ou calem a minha boca
Domínio Públido

 

UMA INÉDITA E INEXPLICÁVEL cegueira atinge inicialmente um homem no trânsito e, aos poucos, o fenômeno se espalha pelo país. Todos os habitantes têm uma visão leitosa e sem contornos, a chamada "cegueira branca".

Colocados em quarentena pelo Estado e sem resultados para a cura, as pessoas lutam por suas necessidades básicas, expondo seus instintos mais baixos.

A cidade se transforma num caos de destruição humana. Cada cego luta pela sua sobrevivência, entregando-se de tal forma ao desespero que abandonam qualquer traço de humanidade.

A única pessoa que ainda consegue enxergar é a “mulher do médico” que, juntamente com um grupo de internos, tenta encontrar a humanidade perdida.

“Ensaio Sobre a Cegueira” é um romance de José Saramago escrito em 1995 que, juntamente com duas outras obras, lhe garantiu o prêmio Nobel de Literatura três anos depois. O romance se tornou um dos mais famosos e renomados do autor.

Sermos cegos, surdos ou mudos, nos limita diante de um mundo que nós literalmente criamos desde que surgimos há cerca de 350 mil anos, na condição de primatas superiores.

Os seres humanos são sociais por natureza e particularmente hábeis em utilizar sistemas de comunicação, principalmente verbal, gestual e escrito, para se expressar, trocar ideias e se organizar.

A cultura humana é marcada pelo apreço à beleza e à estética, o que, combinado com o desejo de expressão, levou a inovações como a arte, a escrita, a literatura e a música.

O Homo sapiens, como espécie, tem como característica o desejo de entender e influenciar o ambiente à sua volta, procurando explicar e manipular os fenômenos naturais através da filosofia, artes, ciências, mitologia e da religião.

Até o início do Paleolítico Superior - há cerca de 50 mil anos - o comportamento moderno, que inclui a linguagem, a música e o sistema de escrita, há 5 mil anos, e outras expressões culturais universais, já tinham se desenvolvido.

Ao longo desse processo foram necessários milhares de anos para a implantação da Democracia - termo que caracteriza o regime político contemporâneo da maioria dos países ocidentais.

Trata-se de um conceito tão importante quanto complexo, cujo significado atual originou-se de várias fontes históricas e desenvolveu-se ao longo de milhares de anos. Uma das principais funções da democracia é a proteção dos direitos humanos fundamentais, como as liberdades de expressão, religião, a proteção legal e as oportunidades de participação na vida política, econômica, e cultural da sociedade. Os cidadãos têm os direitos expressos e os deveres de participar no sistema político que protege seus direitos e liberdade.

No Brasil a democracia foi interrompida durante vários momentos, como na República Velha, sendo recuperada durante a República Nova instaurada entre 1946 e 1964.

O período seguinte, de Ditadura Militar, se caracterizou pela repressão e perseguição, que impedia as pessoas de terem liberdade de expressão. Somente após 30 anos de luta foi restabelecido o regime democrático e implementada uma nova Constituição.

Estar atento a toda e qualquer ação de repressão a estes direitos fundamentais impetrada por quaisquer governos, e agir para preservar uma conquista formatada ao longo de milênios é o que se espera dos que não sofrem ainda da “cegueira branca”.

Recolher livros, impedir atos religiosos das diferentes matrizes existentes, coibir manifestações e opiniões contrárias às diretrizes estabelecidas pelo governo, reprimir o emprego de palavras que identifiquem grupos específicos e legítimos, como LGBTI ou similares, incentivar manifestações de ódio contra quaisquer outras minorias por meio de discursos pessoais e reduzir o amplo espaço conquistado pela Democracia, para que se exponham graves questões referentes aos indígenas ou à negritude do País, é mais que um alerta para que se abram os olhos.

Tempos de barbárie foram descritos por Saramago. Que a ficção não se torne realidade no Brasil.

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História & Cotidiano

Katia Auvray

Katia Auvray

Historiadora e escritora. Autora dos livros "Cidade dos Esquecidos - A vida dos hansenianos num antigo leprosário do Brasil" e da coleção infanto-juvenil "Magia da História", sobre a história da cidade de Salto/SP. Também é Mestre Reiki.

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